Na terra da abundância.

Foto: Anne Lil Oliver

Na terra da abundância é o tema da narrativa conceitual pensada pelo criativo estilista cosmopolita, oriundo de terras mossoroense: Júlio César. Artesão, formado em moda e modelagem no Fashion Institute of Technology (FIT) e com uma vasta experiência em criar designs de roupas que parecem brincar com o efêmero, produz peças atemporais. Suas coleções quase mágicas nos remetem ao mundo das fantasias e nostalgias de épocas passadas e não é difícil cair nesta narrativa onírica e contagiante, cheia de vida e sentimento, pelas cores e tons vívidos e por suas composições híbridas com tecidos de lugares variados do mundo.

Narrativa fantástica obtida através de sua ótica errante, Júlio é um contador de histórias e tem como instrumento estético para compor suas peças a técnica de colagem de tecidos. Colagem deriva da palavra “coller” e remete a tradicional técnica de composição a partir do uso de diversas texturas, ou não, em superposições. Técnica antiga que mescla criatividade e versatilidade ao se apropriar de experimentalismos juntando imagens diversas. No caso do tecido, são sobreposições que vão sendo colocados na peça, criando um mix de cores. O artista nos contou um pouco sobre sua paixão que beira a obsessão pelas colagens. Nelas, ele cria suas próprias técnicas, introduzindo o espectador que vislumbra suas peças a um passeio constante pelas cores e texturas diversas. 

Suas referências não são regulares e fixas, mas sim, combinam versatilidade e liberdade por serem parte identitária de um artista multiétnico. Alimentando-se de outras culturas. -O bom das viagens!!! Como ele mesmo diz, é sua mente se abrir a diversidade de estilos. E nesse compasso segue nosso artista potiguar, passeando nas entrelinhas da costura às composições estéticas da aldeia humana. E seus detalhes enriquecem ao mesclar, por exemplo, uma jaqueta justa confeccionada em cashmere e lã, enfeitada com algodão e renda de seda com botões madrepérola, dando a peça um brilho sensorial.

Foto: Saulo Rocha/ Modelo: Duda

São peças de alta-costura, seguindo padrões rígidos técnicos, onde tudo é feito manualmente (desde a costura até o bordado). Nelas, sempre nos deparamos com uma riqueza de percepções imagéticas que dão à peça um toque de sensualidade delicada e leveza, como se nota numa blusa com autriche (arranjo de plumas), que vemos na sua coleção. 

Foto: Saulo Rocha / Modelo: Aniele

Definitivamente, as mulheres vestidas  no imaginário de Júlio César tem cores vibrantes, tem arte e paixão, e nos induzem a pensar, em mulheres com personalidades fortes e pensantes que imprimem em seu estilo essa vivacidade imagética. 

Apaixonado por biografias encontrou em Gordon Parks e sua biografia “A choice of weapons” um subterfúgio para embalar um pouco da sua estética atual. A obra conta a história do escritor, compositor, artista, fotógrafo e cineasta que aos dezesseis anos mudou de cidade após a morte da mãe e lutou para sobreviver e se educar mantendo seus sonhos. Parks, na primavera de 1943, depois de fotografar equipes de pescadores em Massachusetts foi a Nova York para registrar o movimentado Mercado de Peixe Fulton, na orla marítima sudeste de Manhattan. Colocando-se no meio do cais de trabalho, ele capturou a transferência acelerada de peixes dos barcos para o mercado e os rostos expressivos dos trabalhadores, muitas vezes contra o pano de fundo de um horizonte de cidade emergente em que 40 Wall Street (agora o Edifício Trump) , o American International Building e o 20 Exchange Place são visíveis. Seu estilo documental registrou uma série de imagens que conta um pouco a história dos trabalhadores americanos, como nas pescarias e no movimentado mercado de peixes.

Foto: Gordon Parks. Stevedore, segurando uma garra de lagosta gigante”, New York, 1943.
Gloucester, Massachusetts, 1943

De um lado, Júlio César traz para si, a memória afetiva da efervescência cultural de uma Nova York marcada pela diversidade de povos do mundo inteiro e do seu desenvolvimento econômico. Se as referências cinzas estão impressas no uso do quadriculado, está representando o seu lado viajante, e em contraponto, seu reencontro com suas origens, a terra Brasilis, “Terra da abundância”.  Nos levando a esse trânsito entre sonho e realidade, de roupas que parecem flutuar no mundo real, revelando um Ethos (caráter) hedonista por representar uma nova fase em sua vida,  resgatando a calmaria de contemplar a natureza local e ter tempo para estar mais consigo, como ele nos conta:

“Me recompondo com a ajuda de belas músicas, bons livros, passeios matinais em nossa terra no Brasil, admirando as árvores, os pássaros, os insetos, o vento e o sol. Estar vivo é tudo!”

Foto: Anne Lil Oliver

Nada é convencional, toda imagética de suas peças é revestida de brilho e detalhes que tornam seu trabalho único. Júlio nos conta sobre a influência de Hélio Oiticica em sua nova coleção. Trazendo a Tropicália que é a própria imagem brasileira de vanguarda, em que Oiticica nos apresenta “uma posição estética diante das coisas” — Um labirinto sem teto que remete à arquitetura das favelas e no final o expectador se deparava com um aparelho de tv sempre ligado. Caetano Veloso passou a usar o termo como título de uma de suas canções, o que corroborou para que o termo ganhasse popularidade e desdobramentos na música e na arte como um todo. 

Portanto, Júlio representa o que há de mais atual na cultura como um todo. Ele é a mescla pulsante de culturas e imprime isso nas suas coleções, representando a diversidade cultural. São esses elementos simbólicos que aparecem em seu trabalho que tornam suas peças tão fabulosas. E essa coleção em especial, representa em suas próprias palavras, uma fase autoral de reencontro consigo mesmo e sua liberdade:

“Decidi que esta última apresentação deveria ser mais um capítulo de uma vida bem vivida do que uma explicação do que me inspirou a fazê-la. A realidade é que fiz esta coleção para mim mesmo, para admirar, para meu próprio divertimento e para homenagear aqueles e as coisas que me inspiram na vida. Claro, seria fantástico se vendesse bem”. Julio Cesar NYC

Foto: Saulo Rocha / Modelo: Aniele
Foto: Saulo Rocha / Modelo: Duda

Conheça mais sobre o trabalho de Júlio César em nosso CANAL HI-LO no YouTube. 

Entrevista de Williane Oliveira.

http://www.juliocesarnyc.com/

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